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03/10/2009 - A RIQUEZA DE CIMA PARA BAIXO
Quem diria, apenas há a alguns dias, que o maior país capitalista do Mundo é agora o mais rico país socialista do planeta. Gastaram-se somas avultadíssimas de dinheiro. Morreram mi- lhares de pessoas em campos de batalha. Destruíram-se valores incalculáveis de propriedade. Ruíram muralhas deontológicas e austeras de mitos institucionais e ideológicos para que acima da verdade a grandeza do laissez faire económico acumulasse a magnificência dos modelos reaganianos. E isto para o capitalismo triunfar sobre o socialismo sob a inspiração divina guiando a "mão invisível" de Adam Smith.

Ronald Reagan, que foi actor medíocre e orador exímio antes de ingressar na política, uma espécie de profeta no Partido Republicano, apregoava a suposta distribuição da riqueza de cima para baixo. A ideia é a de quanto mais altos forem os lucros das grandes empresas e dos milionários, mais miolinhos ficarão na mesa para a classe média baixa e a chamada classe do colarinho azul.

Por isso a transformação recente, como um terramoto catastrófico, chegou de súbito para a maioria da população mundial. A Meca do capitalismo entrou em crise. Mas isto estava contudo em ebulição há já algum tempo.

A História um dia há-de de dizer como ocorreu - e o que na realidade se passou - recorrendo como subterfúgio à respeitada teoria intervencionista de John Keney. Cada povo tem a sua memória revisionista.

A NATUREZA HUMANA E O SOCIALISMO - No grande debate que se travou há décadas entre a escola psicanalista e os ideólogos académicos do marxismo, os discípulos de Sigmund Freud venceram. A maioria deles já nem vive, quiçá.

O que nos anos 30 do século passado se teria chamado a natureza humana, o fenómeno que Freud viu de olhos humedecidos sob o eco dos Verduns onde seu irmão agonizava nas trincheiras, foi o monstro subterrâneo e biológico a que ele chamou o Id. É a besta que vem dos primeiros seres unicelulares num processo filogenético de transformação que já nos humanos bate hoje no peito como o gorila e o resto da bicharada. "Meu! Meu!".

Por socialismo entende-se um sistema económico em que a propriedade dos meios de produção pertence ao estado. De maneira que os Estados Unidos não são de todo socialistas. Ainda. Mas o prognóstico marxista sem a Utopia parece inevitável, de forma diferenciada na social-democracia.

Na sua história, todavia, os Estados Unidos nunca estiveram tão próximo do rótulo e da prática. Mas é um socialismo ivo, contrariado e dissonante. Karl Marx visionou o socialismo abrangendo uma multidão proletária, um mundo fantasioso de trabalhadores unidos e felizes. Referia-se aos operários do seu tempo, sem direitos, no princípio da revolução industrial do século XIX, pagos pouco mais do que se permitia aos escravos.

A União Soviética testemunhou que entre Marx e Freud o segundo tinha a razão. Por isso o que se observa nos Estados Unidos leva a marca de um capitalismo forçado, adaptando-se na evolução social que teria, necessariamente, mesmo que apenas numa grandeza teórica, de modificar a Pessoa na dimensão impossível de reformar a espécie. Um modo de psicoterapia universal, fantástica, no tempo e na resolução em que o Superego, a acção socializante da família, das escolas e da sociedade em geral eliminasse todo o processo lento e darwiniano de milhões de anos entre os aferidores cognitivos e morais do Eu e Eles, do Meu e o Nosso. As certezas ideológicas do capitalismo e do socialismo pecam pela falta de coerência perante a realidade da psicologia.

Os dirigentes das grandes empresas americanas de investimento conseguiram a proeza de cavar a sua própria ruína. O Governo Bush foi cúmplice nesta hecatombe financeira, solidário em termos ideológicos com a política de pilhagem e do risco excessivo que destruíram as grandes instituições do Wall Street. O edifício enorme do capitalismo, pretensiosamente apresentado como sólido e férreo, possuía afinal um alicerce de barro colorido pela natureza humana. A ganância, a irresponsabilidade e a falta de carácter causaram a derrocada.

GÉMEOS DIFERENCIADOS - Não existe garantia de que o remédio concebido em Washington obterá uma cura eficaz. Por momentos - e oxalá que resulte - fez-se estacar a manada dos toiros loucos, cujo símbolo de bronze engalana a entrada para a sede da firma Merrill Lynch na capital do Mundo.

O futuro está confuso, contudo, já que num planeta de reservas limitadas a economia do consumismo tem os séculos (décadas?) contados. Em termos imediatos, paralela ao fiasco das hipotecas e o abuso da turba dos tudo-para-mim há a sangria da riqueza americana. É uma característica que a Europa está imitando, embora as duas economias, desenleáveis uma da outra, sejam diferentes.

A crise do Wall Street é uma crise financeira. Em parte, a União Europeia protegeu-se com mecanismos reguladores e a diversificação dos bancos do crédito à habitação. Na Europa não há as instituições gigânticas, a Fannie Mae e a Freddie Mac, que o Congresso americano criou com o fim de promover a realização do sonho comum de cada um possuir a sua casa. A Europa tem ainda uma economia de exportação, enquanto a dos Estados Unidos assenta nos serviços (financeiros e o desenvolvimento de tecnologias).

O MUNDO DAS MULTINACIONAIS - As multinacionais, como John Kenneth Galbraith nos anos 70 de 1900 observou, não são organizações nacionalistas nem temperadas pelo altruísmo. A sua participação nas políticas sociais dos estados tem a função do reforço no labir experimental dos ratos cobaias da psicologia.

O behaviorismo social aumenta a probabilidade na obtenção do comportamento desejado. Por isso se mantêm os trabalhadores nas tarefas mais humildes sem remuneração adequada, porque a alternativa entre a pobreza e a fome, ou a doença física e mental não deixa margem para erro.

As empresas são grupos com dinâmicas específicas, cujo fim é o lucro. Impulsionam-nas procedimentos semelhantes aos valores que categorizam o indivíduo avarento. Quanto mais ganha, mais seguros ficam os accionistas. Em Wall Street, mais firmes se sentiam também os gerentes vivendo à boa e à grande. Pareciam senhores feudais e absolutos nos ducados corporativos, auferindo salários e privilégios astronómicos. Alguns recebiam vencimentos anuais mais altos do que o montante total do orçamento dos Açores. Uma vergonha sem paralelo, qualquer que seja a perspectiva.

Por razões históricas, as multinacionais cavalgam confortavelmente na albarda dos Estados Unidos. No ambiente ideológico feito pelos mercantilistas anglo-americanos criaram-se do século XVII ao século XIX os instrumentos ideológicos e económicos básicos. Neste movimento quase exclusivamente anglo-saxónico os actores eram influenciados pela seguridade e a promoção do federalismo como o viu Frederick Hayek em termos da interposição de interesses paralelos e em competição.

Assim se via a concorrência como uma ordem inevitável regida pelas leis de deus e do mercado, mas ambas separadas. O sistema resultante é inseparável da tese da "Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo" do alemão Max Weber. Reforçou os modos de amontoar e distribuir riqueza até então julgada estável como uma quantidade fixa. Era a visão do Universo newtoniano. Um mecanismo brilhante, o federalismo, em que esta entropia financeira permitiria a disputa daquela quantidade sem alterar o controlo da riqueza no aspecto nacional da propriedade.

DO FEDERALISMO AO GLOBALISMO - Foi neste modelo que o capitalismo concebeu a ideia da globalização, da internacionalização que o capitalismo aprendeu do marxismo-leninismo.

Depois da Primeira Grande Guerra tornara-se evidente que na conquista e através do protectorado (como no relacionamento histórico entre a Inglaterra e Portugal do século XVII ao século XIX) o capitalismo cometeria haraquiri. A partir dos últimos oito anos, a política externa dos Estados Unidos, ao contrário do que pensam muitos dos seus adversários, não tem um propósito nacionalista ou um fim devotado, exclusivamente, ao bem e à superioridade do país. Os pais da pátria já haviam criado o estado neste contexto para escudar a tarefa de criar riqueza sob a égide do código maçónico que se diz estampado de modo críptico no desenho da nota de dólar.

Assim, o mundo precisava dum polícia com um cacete pesado, papel que tem pertencido às forças militares americanas e agora inclui a OTAN. O Japão, a China, mesmo a Rússia terão de aderir antes que, a longo prazo, as Nações Unidas assumam a responsabilidade implícita no pensamento de Woodrow Wilson.

A necessidade académica e intelectual de uma ordem universal não contemplou as pressuposições em termos da preponderância do capitalismo. (Do mesmo modo, a proliferação nuclear tem na sua origem a desigualdade no acesso ao controlo da riqueza mundial e será um agente possante na destruição do nacionalismo).

O nacionalismo dos nossos dias, pois, é uma condição secundária, gerada em dinâmicas específicas do grupo - a identidade social que é mãe do etnocentrismo abjurado pelo grande capital.

O objectivo primeiro passou a ser depois da Segunda Grande Guerra o triunfo do capitalismo como sistema económico e portanto da liberdade na sua prática. A alforria democrática, como a riqueza, veio de cima para baixo por imposição da estabilidade nos mercados da mão-de-obra. Por isso na França os burgueses que compravam títulos aristocráticos aplaudiram a morte de Luís XVI. Protestavam contra a insularidade real do poder e o uso arbitrário do monarca ou dos seus agentes com implicância na actividade económica. Não era só o reconhecimento da corte e o acesso aos canais do poder e influência que eles haviam, simbolicamente, adquirido, mas a liberdade essencial ao estilo de vida da burguesia. O aparelho do estado não lhes facultava uma acção vasta sem os cordelinhos da monarquia e a sua ubíqua burocracia atrofiante da iniciativa. Este grupo de especuladores necessitava do que veio a chamar-se o laissez-faire. Mais do que isto, voltar a face para o outro lado não seria suficiente. A burguesia teria de captar na sua rede maçónica o aparelho do estado como os americanos o faziam.

No mesmo contexto, os Estados Unidos se separaram antes da Inglaterra para competir com Londres sem lhe pagar o imposto com que os ingleses pretendiam saldar a maior dívida externa da sua história e financiar a marinha que dominou os oceanos até às primeiras décadas do século XX.

Nos conflitos com a França nos séculos XVIII e XIX, e em 1812 com os Estados Unidos, a marinha de guerra assegurou à Grã-Bretanha o domínio mercantilista em todos os oceanos e o comércio que lhe trazia a riqueza de todo o mundo, desde a Índia ao Brasil. Permitiu-lhe a exploração, por exemplo, do óleo da baleia. (Sua majestade, no que se refere apenas à família real britânica, ao que parece ainda conta mais de 160 biliões investidos na sua ex-colónia).

BARACK OBAMA NA RECICLAGEM - Nesta panorâmica, um Barack Obama inteligente e refinado, culto e motivado, não passa de um forasteiro. Galgou o muro do conhecimento e a barreira da classe, penetrando os santuários mais exigentes da formação académica.

A campanha eleitoral para a presidência americana revela todo o enredo neste momento, o grande embuste universal. Desde a mentira sem vergonha ao assalto reles e criminoso contra o carácter do candidato pelo Partido Democrata, as mais sujas estratégias de desinformação têm sido usadas de modo ordinário, mesmo ofensivo da pessoa informada. A razão está em que Obama é um centrista ou social-democrata como Cln no continuum ideológico.

Mais do que isto, Obama assumiu, como exigência de um mandato que venha a ganhar, o com- promisso de proceder à redistribuição da riqueza do país através da política fiscal e de legislação para subjugar as multinacionais ao interesse nacional. Tem à sua frente uma tarefa perigosíssima.

A transferência do capital americano para os países que alimentam o consumismo essencial ao sustento do capitalismo internacional - que não é estranho à Europa, inseparável da América - conduziu à necessidade de fazer regressar o dinheiro de novo ao país.

À China, já nas malhas da rede capitalista como fonte de mão-de-obra barata, coube neste processo de reciclagem financeira abastecer o motor americano que move a economia mundial. A China, o Japão e Singapura, entre outros centros asiáticos, proporcionaram o capital que nos últimos dez anos constituiu a fonte das hipotecas na origem deste episódio da crise. A China, assim, suportou os bancos de investimento de Nova Iorque para os americanos lhes pode- rem comprar os produtos simbólicos da sua cultura consumidora e tecnológica.

O MATRIMÓNIO DO CAPITALISMO E DO SOCIALISMO - Quando há três semanas o sistema financeiro acordou nu e escorregando gravemente para o abismo, Washington viu-se entre a espada e a parede, com duas alternativas.

Uma, consistente com a cartilha americana manifestada ao estilo missionário por todo o Mundo (A democracia de George W. Bush para exportação), seria deixar os responsáveis pela ruína arcarem com as consequências dos seus exageros. Assim ordenaria o método científico do behaviorismo social, a lei rígida estruturada nas contingências do reforço.

Esta solução mergulharia os Estados Unidos e o Mundo no caos. Os magnatas perderiam as suas fortunas e o poder. A economia mundial afundar-se-ia. As consequências apenas em termos humanos seriam terríveis. A fome, a miséria, a doença e até a guerra talvez confrontar-nos-iam no século XXI.

A outra alternativa foi mais difícil de aceitar. A ideologia do lassez faire , bushista (mandamento severo do capitalismo já na filosofia social de Herbert Spencer) teria de ser, temporariamente, abandonada.

O Governo contraíra a responsabilidade pelas empresas falhadas, algumas mesmo com sedes fora dos Estados Unidos. Agora tinha de cumprir a sua palavra para com a elite (Bush deu-lhe mesmo o nome de "elite") que o tem apoiado e aos seus mais íntimos parceiros internacionais. Um gesto de auto-preservação da classe. Por acréscimo, os chineses também recebem a sua parte. É que sem o dinheiro chinês e o capitalismo americano os patrões das empresas, os donos da América e do Mundo perderiam a galinha dos ovos de ouro. Como na época revolucionária do Terror francês, havia talvez o medo de o problema seria, possivelmente, resolvido à pancadaria na rua, na praça pública, nas comunas do bairro. Mas a desordem e a incerteza são adversárias do capitalismo porque convolucionam o acesso à mão-de- obra e destabilizam os mercados.

Assim, o capitalismo julgou poder fugir às suas responsabilidades e abandonar a "mão invisível" do escocês Adams Smith, sempre actual desde o século XVIII. Descobriu um burro de carga, uma grande mula corporativa nos contribuintes americanos.

O Mundo terá este sacrifício a agradecer ao povo americano. Resta saber como se definirá o socialismo no futuro. Karl Marx perderá outra vez a batalha, todavia. Os partidos socialistas europeus já abandonaram mesmo a identidade. São sociais-democratas com outro nome. O capitalismo deste momento, decidida- mente, é para o benefício dos caciques das multinacionais que no fundo nada perderam. Como um camaleão, ou um vírus impulsionado pela pressão universal da reprodução, o capitalismo abraçouse ao socialismo.

Neste matrimónio, a globalização não se sente ferida nem o proletariado deixará, possivelmente, de ser de novo feliz.

Fonte: Expresso das Nove
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